
Eram 5h50 da manhã quando o piauiense Pedro Pereira, de 56 anos, morador da cidade de Águas Lindas de Goiás (GO), chegou para votar. Deu certo.
Virou o primeiro da fila à espera de as salas abrirem às 8h, na escola Domingos Simões. Ele estava preocupado porque trabalha como porteiro, há 25 anos, em um prédio em Brasília, a 50 quilômetros de
distância, ou duas horas de ônibus. “Espero que um dia acabe essa escala 6x1 e eu possa ter uma vida melhor”, disse o homem que interrompeu os estudos no quarto ano (quando criança).
Ele afirmou que não lembra "quase nada" do que aprendeu. A prioridade era trabalhar na roça com a família, na cidade de Campo Maior, a 90 quilômetros de Teresina.
“Pisar numa escola mexe demais comigo”. Mexe tanto que conseguiu influenciar para que os seis filhos estudassem. Pedro Pereira votou na Escola Municipal Domingos Simão de Oliveira, construída em
local que foi um curral - Foto Valter Campanato/Agência Brasil Ele costuma contar para os filhos que, para mudar para o Centro-Oeste e tentar a vida, vendeu uma cabra que tinha e comprou passagem
para a capital do país. Sem estudos, trabalhou também como auxiliar de pedreiro. “Quem sabe um dia eu volto a uma escola como essa”.
O homem que vendeu a cabra pensando no sonho de um novo lugar foi votar em uma escola que, na década de 1990, foi implementada na área de curral das vacas de uma fazenda. Improviso A psicopedagoga
Maria do Socorro Pereira, hoje com 69 anos e que ainda atua como professora na escola, recorda que, em 1992, conseguiu, nesse local, reunir as primeiras 60 crianças, filhos de trabalhadores rurais,
para dar aulas. Atualmente, a unidade de ensino tem 1.350 alunos. A estrutura era improvisada inicialmente, mas necessária. “Ocupamos o lugar que era o curral das vacas”.