No carro de som, o locutor pede que os foliões aplaudam as trabalhadoras do sexo: “É uma vida difícil e elas merecem respeito”.
A música começa e os versos são direcionados às mulheres da Vila Mimosa: “esse samba é de vocês”. Apesar de homenagens e palavras de apoio, a maior parte das trabalhadoras não se junta ao bloco de
carnaval. Prefere dançar e observar a festa a partir das calçadas e do interior dos bares. É o caso de Estrela, de 58 anos.
“Eu vou dançar aqui de longe, porque não quero chamar muito a atenção”, diz. “Na boate, não estou nem aí, mas tenho medo que o bloco ache ruim eu dançar com ele, então fico dançando aqui, porque eu
respeito”, completa. Este é um dos desafios do “Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa”, que desfilou na noite chuvosa da última sexta-feira (6) pelas ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro.
Moradores da região criaram a festa em 2018 para celebrar a memória e potência cultural do lugar, historicamente estigmatizado por reunir pontos de prostituição.
A integração com as trabalhadoras do sexo, no entanto, nem sempre ocorre da maneira desejada, explica Cleide Almeida, presidente do bloco e assistente social.
“Algumas trabalhadoras fogem, porque ficam com medo de serem filmadas e aparecer na mídia. Outras, quando veem a gente no bloco, descem para a rua e querem desfilar.
Mas só conseguimos ficar mais junto delas quando há apoio financeiro e projetos sociais acontecendo. E isso não tem ocorrido. Precisamos desse apoio”, diz Cleide.
Um dos líderes da banda “Enxota que eu vou”, que há três anos toca no bloco, Felipe Vasconcellos entende que barreiras socioeconômicas são um dos motivos que impedem maior participação e protagonismo