
Crítico dos pensadores que resistem a classificar movimentos autoritários da extrema direita contemporânea como fascistas, o filósofo Vladimir Safatle defende que é preciso perder o medo de nomear
esse fenômeno. E, mais do que isso, considerar que seus apoiadores fazem um cálculo racional: "É mais ou menos o seguinte: 'não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo
mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu'", descreve em entrevista exclusiva à Agência Brasil o professor da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Autor de A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, ele participa do debate Novos Fascismos Globais, no próximo sábado
(6), a partir das 11h40, dentro da programação d’A Feira do Livro, em São Paulo. Segundo Safatle, formas de violência típicas de estruturas fascistas foram naturalizadas em democracias liberais,
quando acontecem em determinados territórios e são cometidas contra certos grupos. Ele defende ainda que haja reflexão no ambiente acadêmico em relação à evolução do conceito de fascismo, em vez de
reduzi-lo ao contexto do autoritarismo na Itália, na década de 1930. “Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento
constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo”, disse Safatle. Confira os principais trechos da entrevista.
Agência Brasil: Gostaria que você falasse sobre a evolução e aplicação do conceito de fascismo. Vladimir Safatle: Eu sou daqueles que acham que o uso do termo fascismo é adequado para dar conta das
formas de autoritarismo contemporâneo. Na verdade, a gente teve um uso muito restrito que tentava circunscrever o fascismo a um fenômeno histórico preciso dos anos 1930 que não se repetiria mais.